
Foto: G1
Investigação revela esquema de políticos que furam a fila do SUS
Políticos são suspeitos de vender exames e consultas pelo SUS a eleitores. Casos também foram registrados no Paraná e em Goiás.
Políticos montaram esquemas em todo país para furar a fila do Sistema Único de Saúde (SUS) em troca de votos. A denúncia exibida pelo Fantástico no último domingo (9) revelou casos em três estados. No Rio Grande do Sul, um assessor do deputado federal G. C. (PR) (nota do editor: deixamos de nominar o suspeito pois ainda não existe sentença transitada em julgado conforme determina a legislação em vigor) apareceu como suspeito de participar de uma fraude que oferece exames pelo SUS, em tempo recorde, em troca de R$ 50,00. NOTA DO EDITOR: O Fantástico apresentou o nome correndo o risco de ser processado por dano moral.
A investigação começou pela cidade de Guarapuava (PR), onde 44 mil pessoas aguardam por consulta médica. Lá, três vereadores foram afastados porque tinham acesso privilegiado ao sistema de marcação de um consórcio que atende também outras duas cidades da região. Escutas telefônicas mostram os políticos e seus assessores atendendo a pedidos de eleitores que buscavam consultas, exames e cirurgias.
Em Caldas Novas (GO), 14 dos 15 vereadores foram processados pelo Ministério Público porque montaram uma central paralela de marcação de consultas, para atender a eleitores. O atendimento a essas pessoas era feito em tempo recorde. Dois ex-secretários de saúde e um deputado estadual, que na época era vice-prefeito da cidade, também teriam participação no esquema.
Já no Rio Grande do Sul, a fraude foi descoberta em São Lourenço do Sul, na Região Sul do estado, onde um frentista de um posto de gasolina foi flagrado negociando exames de imagem pelo SUS em troca de R$ 50, sem passar pela fila do sistema. Candidato não eleito a vereador na cidade, disse que a fraude seria operada pelo deputado federal G. C. (PR) e por um auxiliar dele.
"Faz três anos que eu venho fazendo isso para o deputado. Se amanhã ou depois der uma zebra, ele pode ser até cassado por causa disso daí", admitiu, sem saber que estava sendo gravado.
A reportagem acompanhou o passo a passo da fraude. O dinheiro pago pelo exame dava direito a um serviço completo: quando chegam em Porto Alegre, os pacientes são recebidos pelo assessor do deputado, M. B. Ele é responsável por levá-los até a clínica Radicom, credenciada pela Secretaria Municipal da Saúde, gestora do SUS na capital.
Enquanto aguardava pelo atendimento, M. B. deu mais detalhes do esquema. Disse que era o responsável por "controlar" o comércio de exames e que os R$ 50 seriam destinados a um certo "doutor". Ele ainda tentou recrutar para o esquema um integrante da equipe de reportagem, pensando que conversava com um morador do interior.
"Tu vai ser o nosso representante lá. Vou botar lá. Aí ele vai te ligar no dia do teu aniversário. Qualquer coisa a gente faz contigo. Indicar os pacientes. Pode ser até um cabo eleitoral", disse.
A fraude prejudica pacientes como o aposentado Sílvio Gusmão, que está há um ano na fila para realizar uma ressonância pelo SUS, a mesma que o frentista e o assessor do deputado conseguem em dois dias. Ele vive em uma cadeira de rodas e vê sua saúde piorar a cada dia.
"Ultimamente, piorou a situação das pernas, ficou muita rigidez. A dor aumentou também nas costas", lamenta Silvio.
Já os beneficiados pelo esquema ilegal chegam a receber o resultado dos exames em casa, com o santinho do candidato a Vereador anexado ao laudo. Ele deixou claro benefício eleitoral que pretendia obter com a fraude para furar a fila do SUS. "É o que eu digo sempre, se eu achar que eu mereço, me ajude no voto. E ele (deputado) também", afirmou.
Mais tarde, confrontado pela equipe de reportagem, o frentista negou participação no esquema. Assim como o deputado federal, que anunciou que irá demitir o assessor.
"Jamais autorizei, jamais comunguei com coisa ilegal e irregular. E vou dizer mais: se comprovar isso aqui, eu peço renúncia aqui da Câmara, se comprovar qualquer tipo de participação", afirmou.
Depois de checar os dados de uma das pacientes, a Secretaria Municipal da Saúde de Porto Alegre confirmou que o exame foi pago pelo SUS, sem passar por qualquer regulação, ou seja, sem fazer parte da fila. O órgão anunciou abertura de auditoria. Já a direção da clínica Radicom garantiu que desconhecia o esquema e que abriu uma investigação interna.
