Texto do Livro do Dr. Edilberto Hammes
Corriam os primeiros anos da década de 1970. O médico lourenciano Edilberto Luiz Hammes voltava de Porto Alegre com sua esposa e dois filhos pequenos, dirigindo um “fusquinha”, seu primeiro automóvel. Era noite de lua nova, 22 horas, talvez um pouco mais. A escuridão era total. Somente as luzes dos faróis dos carros iluminavam a BR-116, asfaltada, uma rodovia com pobre sinalização. Dirigindo com atenção, o médico cuidava a estrada de saibro que levaria a família à cidade de São Lourenço do Sul. Não havia qualquer luz, qualquer indicação, qualquer sinal de trânsito que indicasse a entrada. Nenhuma placa, nenhuma seta... E, num pequeno momento de distração, o motorista se deu conta de que já havia passado dela. Um quilômetro, talvez. Ia rumo a Pelotas. Retornando então, e agora com cuidado redobrado, entrou finalmente na rodovia estadual, naquela época sem asfalto ainda, e empoeirada, conduziu-os até a cidade. O clarão da iluminação pública urbana que hoje é visível quando se transita pela rodovia federal, não havia na época; nossas ruas eram mais escuras e os postes de iluminação pública eram mais baixos, ao contrário do que acontece atualmente.
Pois, exatamente naquele momento veio à mente do médico a vontade de, um dia, ver construído um pórtico, iluminado, como existiam tantos outros que ele conhecia em outras belas cidadezinhas do interior. Um pórtico que fizesse lembrar a existência de nossa escondida cidade, que queria ser turística. A partir daquele episódio, sempre que o médico Dr. Hammes e
sua família viajavam pela BR-116 à noite, lembrava-se ele de um pórtico futuro... Em 1974 seria, finalmente, asfaltada nossa antiga estrada de saibro RS-265 e a construído o trevo de acesso à federal.
Em 1975, Hammes foi convidado para fazer parte do quadro de associados do Rotary Clube de São Lourenço do Sul, o que foi aceito por ele prazerosamente. Em 1979 seria indicado pelos companheiros para assumir a presidência do conceituado clube na gestão 1980-1981. O futuro presidente sentiu então que chegara o momento do grande desafio: o da construção do tão sonhado pórtico! Afinal, teria sob sua direção o comando de um Clube de Serviço. Serviço à comunidade, onde nascera o médico. E aceitou...
Durante meses, antes da posse, o “projeto pórtico” era todo segredo. O único que sabia, além do presidente, era o futuro secretário, escolhido a dedo, companheiro Amilton Vargas. Sem que ninguém desconfiasse, foram os dois, numa tarde de sábado, à estrada e no alto do morro que existia à época junto ao trevo de acesso, e fizeram uma montagem fotográfica do que seria, no futuro, o “Pórtico do Sol”. A maqueta da obra, o médico fez com serrinha tico-tico: era um arco com umas pontas, em madeira compensada e media cerca de vinte centímetros de ponta a ponta. A maqueta foi dependurada com imperceptíveis fios de linha em uma armação de madeira. Hammes, também fotógrafo amador, mirou o pórtico em miniatura na direção do visor da câmara, enquanto o secretário segurava toda a armação e, assim, fez várias fotografias. O resultado final ficaria uma beleza: a fotomontagem mostrava claramente a visão futurista daquela que seria a maior obra concreta do Rotary Clube em nossa cidade, até hoje.
Em 27 de maio de 1980, o jornal local O Lourenciano revelava à população de São Lourenço do Sul a intenção do futuro presidente de construir o Pórtico do Sol, o que, provavelmente, não foi levado a sério pela maioria dos leitores. No dia da posse, 1 o de julho de 1980, foi pelo presidente anunciada a meta principal de sua gestão, o “Monumental Pórtico do Sol”. Muitos companheiros, surpresos e cépticos, não acreditaram. Duvidaram. Achavam que seria um projeto caro demais e que seria uma aventura tentar construí-lo. Depois, no entanto, alguns arremangaram-se e jogaram-se à luta com determinação.
Estavam “de mãos dadas para servir” com o presidente, os fantásticos companheiros Amilton Machado de Vargas (secretário), Bento Bettin (tesoureiro), Udo Schaun (Avenida de Serviços Internos), Egon Evaldo Hirschmann (Avenida de Serviços Profissionais), Ruhd Hübner (Avenida de Serviços à Comunidade), Hermes Pereira da Silva (companheiro protocolo) e Ênero Francisco Cabaldi (boletim do Clube). Com o prestígio desses nomes, não foi difícil. O apoio da Prefeitura Municipal na pessoa de seu titular Ronald Spiering, foi decisivo. A confiança que o comércio, a indústria e a população depositavam nos nomes que compunham o Conselho Diretor e no próprio Rotary Clube, proporcionou a arrecadação de fundos para a construção, iniciada nos últimos dias de outubro de 1980.
Todos os dias, no afã de ver a obra andando, o médico-presidente do Rotary Clube deixava seu consultório e procurava – pelo menos com a vontade – apressar o seu término da grande obra. Por mais que quisesse, por mais que tentasse acelerar o trabalho dos pedreiros, por mais que insistisse junto ao engenheiro, que era também o dono da empreiteira, para que ela fosse concluída dentro da mesma gestão, isso não aconteceu. Mesmo que o Clube mantivesse as contas rigorosamente em dia. Mesmo que o Clube tivesse dinheiro em caixa mais do que suficiente para terminá-la! O próximo presidente que havia também colaborado e acompanhado o desenrolar da obra na gestão anterior, ficou incumbido de concluí-la.
Na data de sua inauguração, 20 de dezembro de 1981 (num domingo), a obra seria doada pelo clube à municipalidade. Presentes à solenidade, às 20 horas, estavam: o prefeito municipal Ronald Spiering, o past-governador do então Distrito 468 de RI Edson Pereira Neves (governador durante a construção da obra e grande incentivador); o agora presidente do Rotary Clube de São Lourenço do Sul, Ruhd Hübner; o presidente da Câmara de Vereadores Hylton Becker, além de familiares e convidados, ocasião em que foi ligada a chave da iluminação pelo chefe do executivo, e feita a abertura da fita pelo ex-governador Neves (que faria logo em seguida o discurso final) e pelo o idealizador e construtor do Pórtico Monumental do Sol, o médico Edilberto Luiz Hammes que se fazia acompanhar da família.
Hoje ele está lá, marcando a entrada de nossa cidade, tal qual o sonho que tivera seu idealizador há quase quarenta anos, sendo hoje um dos símbolos de São Lourenço do Sul! Ao lado do pórtico - que ainda espera um bom acabamento, uma iluminação indireta, escondida no chão, fachos de luz que partem de cada ponta do sol e um bonito ajardinamento em seu entorno (sonhos de seu idealizador) - e abaixo da grande roda dentada do Rotary, estão perpetuados como preito de gratidão, em placa metálica comemorativa (inaugurada alguns anos depois, na segunda gestão de Hermes Pereira da Silva como presidente do Clube no ano rotário 1986-87 e que seria, num futuro próximo, Governador do Distrito 468), o nome das entidades e pessoas que, um dia, acreditaram na sua construção.
